Ao utilizar este website está a concordar com a nossa política de uso de cookies. Para mais informações consulte a nossa política de privacidade e uso de cookies

OK

Arinto, o Hock Português 04 Abr '19

Arinto, o Hock Português

Na semana passada o meu amigo José Fidalgo levou-me ao lançamento da nova colheita do Pêra-Manca. O evento, feito na Adega da Cartuxa, serviu para lançar a colheita de 2014 deste vinho que se tornou um ícone dos vinhos em Portugal, não só pela qualidade mas também pelos preços que atinge atualmente. Não é novidade que a qualidade deste vinho é indiscutível e que temos mais uma boa colheita de Pêra-Manca, mas o que me apanhou de surpresa nesta visita ao Alentejo foi o Arinto.

A surpresa foi logo à chegada, quando nos serviram um espumante da casa. Rapidamente o espumante ‘disse o que era’, desvendando o seu segredo. Em pleno Alentejo, uma frescura assim só podia ser da casta Arinto.

Esta casta, hoje uma das mais espalhadas pelo país, é marcante. O seu aroma e a sua acidez vincada e tenaz torna-a uma casta companheira de qualquer outra no nosso Portugal ‘quente’. Somos um país à beira-mar plantado e temperado pelo Oceano Atlântico, mas somos também um país do Sul da Europa onde o calor se faz sentir bastante, em especial nas regiões com maior influência continental. Num clima assim, as castas de acidez pronunciada são como aquela brisa que se sente nos dias mais quentes de verão...

A Arinto já era famosa mesmo antes da criação da DOC Bucelas, de onde se acredita ser originária. Durante as invasões Napoleónicas esteve baseado em Portugal o Duque de Wellington que chefiou a aliança entre nós e Inglaterra contra o invasor. O Arinto de Bucelas fez tanto sucesso na altura que o Duque decidiu levá-lo como oferta ao Rei George III. Daí para a ribalta em terras britânicas foi um ápice, ganhando o nome de Portuguese Hock, pois diziam que a qualidade se assemelhava aos vinhos do estilo Hockheimer com grande fama entre os britânicos e com origem na região de Rheingau, na Alemanha.

É, sem dúvida, uma das castas mais nobres que temos. E além de boa companheira de outras castas quando em lote, é também amiga do viticultor na vinha e do enólogo na adega. Não é mais aclamada na sua versão monocasta, porque nem todos os gostos caem no encanto que tem a sua expressão direta e personalidade única. Explicado de outra forma, é como aquelas pessoas que são tão diretas e sem rodeios que às vezes nos parecem até meio ‘azedas’. Uma pessoa assim não gera logo simpatia, mas a verdade é que o seu carácter forte e aquela ‘acidez’ acutilante acabam por torná-la uma personalidade inesquecível. A casta Arinto é assim. Pura, direta e única.

 

Hélder Cunha
A minha vida é o vinho