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Os vinhos entre o mar e a terra 18 Abr '19

Nada melhor do que umas férias em família no Sotavento Algarvio. É daqui que escrevo o texto desta semana, do destino de excelência de veraneio dos portugueses, que é também um dos melhores destinos para aqueles que vivem no Norte da Europa. Aqui o clima é ameno e, mesmo em Abril, dá para fazer praia, quando o vento sopra leve…

Entre o mar e a serra fica o Algarve. E a separar ambos, o chamado barrocal, onde na minha opinião estão dos melhores solos das terras algarvias. Acontece que no Algarve as disputas foram sempre pelo litoral, o que se entende, pois é no litoral que está o comércio, seja ele local ou o de exportação. Curiosamente, no Algarve sempre se importou vinho, mesmo depois de se ter começado a produzir por cá. Quem podia, preferia trazer vinho de outras regiões, como da Bética, atual Andaluzia, ou da Gália.

Os vinhos Algarvios são ainda o que sempre foram, quentes, fortes e com baixo potencial de envelhecimento. E é fácil de entender. Este clima de invernos temperados e verões quentes e secos não permite mais. Aqui, a fruta - uvas incluídas - fica mais doce, menos ácida. E consequentemente os vinhos produzidos a partir destas uvas são normalmente alcoólicos e chatos*. Historicamente as uvas do Algarve não serviam só para vinho. As passas das uvas – tal como os afamados figos - sempre serviram para comércio. E há uma curiosidade engraçada em relação ao vinho do Algarve: sabia que em tempos serviu para ‘falsificar’ a produção de Vinhos do Porto de baixa qualidade? Isto aconteceu antes da região do Douro ser demarcada. Produziam-se facilmente boas bases para vinhos do Porto, porque as uvas algarvias tinham um potencial de graduação alcoólica alta, o que teoricamente permite boas bases para vinhos fortificados.

Nesta região os vinhos eram maioritariamente tintos - é só olhar para o encepamento (o conjunto das castas que compõem um vinhedo). Só que estes pouca longevidade têm, pela falta de acidez e estrutura suave que os caracteriza. Faz sentido apostar nos vinhos Rosé, que são já hoje uma escolha segura e permite que se colham as uvas bem antes de toda a acidez se perder no calor do verão algarvio. O caminho é longo, mas o Algarve está a seguir na direção certa, rumo ao sucesso. Provence que se cuide, pois embora o Verão seja quente aqui, é também salgado, e disso poucas regiões vinícolas se podem gabar.

*Termo utilizado em enologia para caracterizar vinhos com falta de frescura, ou seja, acidez.

Hélder Cunha
A minha vida é o vinho