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Vinhos Naturais 09 Fev '19

Vinhos Naturais

O mundo está em constante mudança e essas mudanças são cada vez mais rápidas. Temos o mundo na palma da mão e somos inundados de novidades a toda a hora. É tanta a informação que se torna difícil conhecer, avaliar e fazer escolhas. Talvez seja por tudo isto que há cada vez mais movimentos a defender o que é menos manipulado e mais pessoas em busca do que é mais puro.

No vinho, na minha profissão de enólogo, este movimento já se tornou suficientemente grande para ser “moda”. E ultimamente, a expressão “vinhos naturais” aparece ao virar de uma esquina ou de uma página, ou ao toque de um dedo.

O meu caminho nesta profissão começou na Califórnia, há 20 vindimas atrás, quando ainda se procurava controlar o processo todo de produção de vinho. Lá aprendi que o segredo de boa enologia, para além de ser ter as melhores uvas possíveis, era controlar todo o processo tirando partido da tecnologia disponível. Ora, parece que alguns estão a ficar cansados de tanto controlo e intervenção e querem voltar ao que é espontâneo, ao que é natural. Isto não quer dizer voltar ao “seja o que Deus quiser”, mas sim voltar ao respeito pela natureza e ao que a natureza nos traz (com a nossa condução, naturalmente).

 

Já percebeu o que são vinhos naturais, naturalmente...

 

São vinhos em que se deixa a natureza atuar, são vinhos que, embora sejam feitos pelo homem, a intervenção deste é mínima. Num ideal utópico, são vinhos que apenas nascem de uvas e nada mais sai ou entra, vinhos de apenas um ingrediente, as uvas.

Ora, qual é o papel do enólogo? Controlar, buscar a perfeição na enologia moderna, entregar consistência ano após ano ao consumidor dos seus vinhos. Não será nunca a produzir vinhos naturais que o conseguirá, pois aqui impera o terroir, o ano da colheita. No caso dos vinhos naturais, impera o caos.

É este caos que tem vindo a crescer nos nichos do mundo do vinho, vinhos que nascem de uvas em produção biológica ou mesmo em produção biodinâmica, vinhos que primam pela singularidade, mas que tendencialmente primam também pelo defeito que a intervenção mínima não deixa corrigir ou controlar. Falo daquele defeito que nos retira o prazer de beber vinho. Um amargor exagerado, uma oxidação excessiva ou outra característica menos positiva que retire o melhor que o vinho tem.

É neste ponto que a minha experiência como enólogo não me deixa ficar tranquilo. O vinho é para beber e saber bem. Pode até não agradar a todos, mas nunca pode desagradar a todos. E nos vinhos naturais não deve imperar o deixar acontecer, pois nunca sabemos o caminho onde vai parar. Estou de acordo que deve imperar a intervenção mínima, desde que não faça com que a qualidade daquilo que a natureza deu e o homem cultivou se perca, naturalmente. 

Hélder Cunha

A minha vida é o vinho.